A Morte Do Eu [Por Viviane Felipe]

Quantos de nós não morreu nos últimos tempos?

A morte de uma maneira geral assusta a todos nós.

A morte física, obviamente.

Mas, o que dizer de uma morte interior, morte emocional?

Há três anos atrás vivi uma experiência dessas que só me caiu a ficha há pouco tempo.

Um relacionamento totalmente conturbado e cheio de neuroses e tudo o mais de ruim que se poderia imaginar.

Em um dado momento pedi a Deus pra morrer tamanha era a minha dor e sofrimento, o que pensar nesse momento?

MORRER.

O que é MORRER?

A morte simbólica de emoções, comportamentos, maneiras de ser.

Isso podemos matar em nós de forma simbólica e porque não dizer, definitiva!

Essa relação da qual procurei subir degraus de evolução que em vão não conquistei, as minhas dores e neuroses, creio eu, começaram aí, quando em tentativas desesperadas fiz de tudo pra conquistá-lo.

Foram cinco anos dolorosos e pesados, gastando energia em algo totalmente insano da minha parte.

Mas e ele?

Qual seria a visão dele nisso tudo?

Eu Viviane como insana, o que na realidade era.

Depois desse período todo de tentativas, não aguentei mais!

Nesse momento implorei por algo absurdo, A MORTE, e…

MORRI.

A partir desse momento, então começou a minha jornada de autoconhecimento, as minhas outras mortes, mortes de um Eu que não cabia mais em meu Ser, em meu sistema por inteiro.

A minha relação?

Claro que findou, como nunca havia existido de verdade.

A dor me consumiu, mas o fim era inevitável, e uma decisão somente minha.

Mas as mortes.

O que são elas afinal?

Quando decidimos morrer, não é o corpo que vai fazer isso e sim nosso interior em suas múltiplas facetas.

Aquilo que em nós não conversa mais com o nosso Ser, que não comporta mais algumas decisões e comportamentos.

Quando chegamos nesse ponto de ebulição?

No momento da insatisfação, quando o que fazemos em nossa vida perde o sentido, a razão de ser.

No meu caso foi um relacionamento tóxico e destrutivo, mas poderia ser um trabalho insatisfatório, moradia, casamento, enfim…

Mas os comportamentos são questões mais profundas de serem estudadas e analisadas com relação a morte.

Quando determinado comportamento não faz mais sentido, a crença relacionada a ele, ou que gerou ele, deve morrer.

Aí começa mudança, ou o que fazer?

O que decidir?

Começamos a escolher se vamos ou não matar esse comportamento.

O que deve morrer?

Deve morrer?

E para onde evoluir?

Tudo em nós morre um pouco todos os dias, fisiologicamente falando.

Estamos caminhando para o fim derradeiro, é a única certeza.

Mas as emoções relacionadas a certos comportamentos e crenças também devem morrer, ou por bem ou por mal.

Preferível por bem, por decisão consciente, de que algo não cabe mais aqui dentro, acabou, findou.

A morte é tão linda!

Essa do Eu!

É linda, sublime, necessária.

Para que eu possa crescer como pessoa ela é de fundamental importância, porque através dela transcendo o que não mais sou eu, naquele momento..

A morte, essa emocional, precede a cura, ou o caminho para ela.

Quando morre um comportamento, repito, crenças relacionadas morrem e abrimos espaço para novos conhecimentos, comportamentos e partes nossas que desconhecemos, uma velha pessoa morre para que outra possa surgir, fresca e renovada.

É a experimentação de novas ideias, novos conceitos, novas pessoas dentro de nós mesmos que escondemos e precisamos experimentar e faze-las viver.

Sem a morte do Eu, não será possível experimentar um outro ser.

Não é lindo isso?

Um outro ser, a partir da morte do velho ser.

A sombra de nós, o que foi escondido durante um período, é uma morte também.

Características foram jogadas em um porão.

Mortas há tempos atrás.

Morte = repressão

Essa morte bloqueia quem poderíamos ter sido de verdade.

No lugar desse Eu, colocamos outro aceitável pela sociedade, etc, etc, etc.

Esse falso Eu é que quer morrer, e morre enfim.

Quantas mortes podemos experimentar na nossa vida, meu Deus?

O fluxo de entradas e saídas de pessoas em nossa vida, é uma morte..

Cumpre-se o que era pra ser e partem, não da vida, mas da nossa vida.

Aquele período de permanência trouxe pra nós a lição que precisava e partiu.

A partida é a morte que trouxe a nossa morte também, pois no aprendizado, velhas cargas foram mostradas, trabalhadas e descartadas..

A MORTE DO EU novamente.

Na nossa própria morte também passamos pelo nosso luto, luto da partida do velho EU para o novo EU.

Esse luto dura o tempo necessário para outro aprendizado, novas fases e assim por diante.

Cabe a nós o olhar sereno, cuidadoso e cheio de compaixão, para a despedida desse ser que nos trouxe no período de estadia em nós tantas lições, tanto autoconhecimento, tanto amor!

Amor por partes que desconhecíamos e que pra morrer, veio à tona.

Agora faço uma carta de despedida, para que esse velho Ser vá embora devidamente trabalhado e com a minha gratidão eterna por tudo que me trouxe.

DESPEDIDA DO EU

Meu querido EU!

Essa carta finaliza meus sentimentos com relação a você.

Você me foi útil por muito tempo.

Todas as suas angústias, sentimentos de inferioridade me trouxeram até este momento.

Quero me despedir de você de forma definitiva, mas também de forma temporária.

DEFINITIVA – porque algumas coisas em você morreram e não vão mais voltar, são aprendizados que ficam e que me fizeram crescer.

TEMPORÁRIA – porque você faz parte de mim, se você for embora definitivamente, morro eu também, fisicamente.

Bom, você e eu em pleno crescimento, desenvolvimento – não posso te matar – só me despedir de você.

Não posso terminar essa carta sem agradecer todo o bem que você traz para a minha vida.

Se partes de você não morrer, eu não posso crescer.

Te agradeço por todos os aprendizados, dores, choros que você me causa, mas que me fazem ser quem eu sou hoje!

Meu querido EU – que você continue morrendo e renascendo infinitas vezes para que eu seja sempre EU.

ASSINADO: NOVO EU.

Que assim nossas mortes possam acontecer quantas vezes forem necessárias para o nosso crescimento.

Se despeça do que não é mais seu e de quem você não é mais!

Vamos ser novos EUs!

Viviane Felipe