Antes Só, Do Que Mal Acompanhado(a) [Por Adriana Fazzi]

Muitas pessoas falam isso:

Antes só, do que mal acompanhada.

Minha mãe falava…

Andei pensando sobre esta afirmação.

O que é estar mal acompanhada?

O que caracteriza a má companhia?

Alguns podem dizer que má companhia é a pessoa cheia de vícios, que não respeita leis ou mesmo, as outras pessoas.

Ou que é a pessoa mau caráter.

Outros podem dizer que má companhia é quem pensa diferente e por isto provoca algum tipo de conflito.

Pode haver quem ache que a pessoa insegura, cheia de dúvidas e que as despeja sobre os outros é má companhia.

Há ainda, talvez, quem diga que a dita pessoa folgada, aquela que procura quando precisa e depois some; que pede dinheiro emprestado e nunca paga, seria má companhia.

Aí fiquei pensando, parece-me que, como quase tudo na vida, cada pessoa terá uma visão da tal má companhia.

Dependendo de como estiver seu universo interior ela verá cada uma das possibilidades acima de forma diferente.

Se estiver de “cabeça cheia”, preocupada, a folgada ou a insegura serão, certamente, pessoas com as quais não vai querer estar e é provável que diga que é melhor estar só do que mal acompanhada.

Se, por outro lado, a pessoa estiver numa fase boa, em que sente a vida fluindo conforme suas expectativas, sentirá prazer em ouvir a insegura e atenderá com alguma paciência a folgada.

Nos sentimos mal acompanhados quando não há afinidade, os pensamentos são divergentes, não há eco.

Claro que a divergência de ideias pode ser rica, a troca de opiniões, a visão por outros ângulos e o compartilhamento de mais informações sempre será construtivo.

Mas será que estamos abertos a ouvir, e escutar, quem pensa diferente da gente?

Acho que não.

E assim, perdemos a oportunidade de abrir a mente, de filosofar, de explorar os temas mais variados desde os controversos (política e religião) até tudo mais que possamos imaginar.

Mas perdemos oportunidades de trabalhar nosso autoconhecimento, nossa tolerância e paciência, perdemos a chance de abrir o coração e a mente para o outro.

Realmente escutar o que o outro tem a dizer, refletir.

Por vezes não fará o menor sentido, não concordaremos e
continuaremos com nossa visão prévia do tema.

O que não significa que o outro torna-se imediatamente um inimigo, alguém a ser evitado a qualquer custo, existe apenas divergência de opinião.

Mas é, sem dúvida, oportunidade de mudar pontos de vista, de praticar a tolerância, de rever conceitos.

Ano passado assistindo a um telejornal em que discutiam sobre a soltura de um preso famoso, tudo dentro da lei (ou seja, podia até ser Imoral, mas era Legal), e um dos comentaristas disse ao longo de sua fala que quando o indivíduo já cumpriu a pena tem o direito de voltar a sociedade e refazer a vida (não era o caso da pessoa em questão que ainda não cumprira pena total), mas fiquei pensando, porque eu tinha uma visão bem radical, aquela de que o criminoso carregaria o estigma o resto da vida e estaria fora da sociedade para sempre.

Claro que a história da pessoa não será apagada, mas será que muitos não teriam que ser acolhidos na
sociedade e recuperados, ter uma nova chance?

É sabido que nosso sistema prisional é lamentável e não recupera ninguém, e que o tema é polêmico e tem muitas variáveis, mas este é outro assunto.

Meu ponto é que o comentarista me fez refletir sobre minha opinião e ver que eu não tinha muita tolerância, ou até mesmo solidariedade, com pessoas naquela condição.

Se a pessoa foi julgada, condenada e cumpriu a pena, deve ter nova chance.

Deve ter a oportunidade de mudar o rumo da vida.

Em ocasiões assim, normalmente, se diz que o comentarista não sabe de nada, que está falando bobagem, então, penso que sempre vale a pena tentar olhar pelo prisma do outro.

Dessa forma, parece-me que se nos abrirmos ao diferente, se formos pacientes, se respeitarmos a opinião do outro e dermos a chance do outro se expressar, e a nós mesmos a oportunidade de escutar outro ponto de vista, teremos muito a ganhar.

Na verdade, ambos ganham.

Fácil não é, mas é um exercício interessante.

Assim, estar só pode, de alguma forma, ser confortável porque não temos que argumentar ou nos aborrecermos com visões de mundo divergentes que nos colocam em conflito interno, nos obrigam a pensar, ponderar e, em alguns casos, a rever nossa opinião.

Por outro lado, perde-se grandes oportunidades de ampliar a visão de mundo, conhecer mais sobre alguns assuntos.

A reflexão sobre uma opinião divergente nos ajuda a amadurecer, pode nos fazer mais tolerantes às diferenças.

Mas quando não há respeito ou há agressão de qualquer tipo; quando se é julgado bom ou não pela etiqueta da roupa que veste ou pelo carro que dirige, acho que vale mesmo estar só.

Não é tolerável ser desrespeitado ou mesmo agredido, verbal ou fisicamente.

Condições como estas não podem, em minha opinião, acrescentar nada de positivo ao convívio.

Devemos respeitar a opinião alheia, mas devemos nos respeitar também, nos preservar.

Assim, acredito que neste caso estar só é mais saudável.

Ser julgado “bom ou não” pela etiqueta da roupa que veste ou pelo carro que dirige é também uma forma de desrespeito.

Somos quem somos, com nossos defeitos e virtudes, e todo o mundo os têm.

Belas roupas podem ser apenas o verniz ocultando um interior solitário, frio, cruel até.

Entra aqui o ser e o ter.

Dificuldade para muitos, pois o exterior é o que aparece primeiro e gera o primeiro julgamento.

Quero que gostem de mim e me respeitem por quem sou, não pelo que tenho ou deixo de ter.

Num mundo como o atual, em que se mata o torcedor do time de futebol adversário, critica-se e condena-se quem pratica outra religião, destroem-se Centros, imagens, tudo o que representa a fé de alguém, a prática de estar em sociedade é um desafio.

Cabe a cada um de nós por fim, nos desarmarmos e buscarmos ouvir o outro lembrando que todos podemos ensinar e aprender e lembrar também, do respeito ao outro e do autorrespeito.