Por Que O Brasileiro Adora Uma Fofoca?

Como talvez você saiba, eu participei do último Hellinger Camp, na linda cidade alemã Bad Reinchenhall, no mês passado (outubro/2017).

Muitas coisas aconteceram durante os 5 dias intensos de Constelações Familiares conduzidas por aquele que as criou, Bert Hellinger, e sua esposa, Sophie Hellinger.

Se você já leu meu artigo Homem Não Presta, você sabe que também tenho uma admiração gigantesca pela primeira consteladora do México: a gigantesca (de 1.50m) Angélica Olivera.

Na foto abaixo, que pedi para ela tirar comigo, justifiquei tal necessidade dizendo que eu a amava.

Angélica muito carinhosamente disse:

Claro! 

Vamos ali na escada, pois você é muito alto.

A Angélica conduziu, um dia depois desta foto, uma sessão chamada Exercícios de Constelação, das 19hs às 20hs.

Mathias, seu tradutor, conhecendo o lado latino e engraçado dela, abriu essa sessão perguntando:

Angélica, vamos nos divertir agora?

Esta pergunta foi feita, pois ela geralmente traz muita energia e alegria aos exercícios, especialmente depois de um longo dia com muitas questões profundas envolvendo todos os 600 participantes de mais de 35 países.

Dessa vez, a Angélica disse não.

Ela disse que existia algo profundo a comentar sobre o terremoto de setembro no México, ou seja, apenas um mês antes do CAMP.

Ela disse que esse havia sido o terremoto mais forte desde 1985.

Comentou que o México ainda carregava uma dor velada devido aos milhares de corpos não encontrados e às mortes não confirmadas desde 1985.

Ela disse que até mesmo já havia conduzido uma Constelação na qual havia ficado claro que essa dor, o não reconhecimento da dor da morte, do luto, deveria ser honrado.

Assim sendo, todos os participantes da Constelação foram até suas casas acender uma vela para honrar a dor daqueles que haviam morrido e sofrido durante o terremoto de 1985, bem como a dor daqueles que eles haviam “deixado”.

Inclusive, Constelações explicam também as repetições, e o terremoto de 2017 aconteceu exatamente no mesmo dia do terremoto de 1985.

No mesmo dia, 32 anos depois.

Ela continuou dizendo que em 2017, diferente de 1985, o número de mortos foi pequeno.

Devido ao grande tremor o número de mortos seria maior, mas felizmente “apenas” 220 pessoas morreram.

Digo “apenas”, e entre aspas, pois em 1985 foram mais de 10 mil mortos.

A Angélica disse que o número divulgado de 220 mortos foi uma surpresa para ela, visto que, seu Whatsapp com grupos da escola na qual ela é diretora, com mais de 400 alunos, e da Universidade em que trabalha, eram em sua maioria sobre notícias de desastres e de muitas mortes.

Ela disse que o tempo inteiro apareciam notícias de que um novo prédio havia caído, uma ponte havia sido destruída, escolas estavam com a estrutura condenada e poderiam desabar a qualquer momento e mais e mais desgraças: fofocas.

Todas essas notícias eram mentiras, e ela comentou que mesmo com laudos técnicos garantindo que a estrutura de sua escola era segura, foi difícil conseguir acalmar pais e crianças para voltarem a escola.

Ela e seus professores, então, foram para a porta da escola todos os dias para recepcionar todos os alunos pessoalmente e os convidar a entrar dizendo que era seguro.

Talvez agora você entenda um pouco melhor porque sou tão fã assim dessa docente da Hellinger Schulle.

Continuando, Angélica nos perguntou:

Por quê? Por que das fofocas e notícias aterrorizantes e irreais? Essas fofocas estão a serviço do que? Qual sua função?

As Constelações nos ensinam que todo comportamento, toda dor, todo incômodo, e todas as questões que carregamos em nossa vida estão a serviço de algo maior, algo que talvez esteja por trás da situação atual, mas que precisa ser visto, compreendido.

Nesse caso, Angélica nos disse que o motivo de tantas notícias negativas enraizadas em propagar o medo, possivelmente estavam a serviço da dor de 1985.

Isso fez muito sentido para mim.

Existe uma dor, um luto, algo que nunca foi visto e honrado.

Assim sendo, existe uma vontade na alma, nos habitantes daquele local em enfatizar a necessidade de que o luto pelos mortos, nesse caso os de 1985, fosse colocado em lugar de honra.

Enquanto não honramos a dor da morte, existe a necessidade de divulgarmos de forma negativa toda e qualquer informação.

As Constelações possibilitam que assim que encontramos a raiz de algum comportamento, o coloquemos em lugar de honra, podendo assim, nos libertar dele.

Quando essa ficha me caiu, imediatamente lembrei do Brasil.

Lembrei de um dia que eu estava trabalhando na Saint Gobain e havia a notícia de que o PCC estava aterrorizando São Paulo.

Lembro de uma amiga desligando o telefone, se levantando e dizendo:

O PCC já está chegando a São Bernardo. O que vamos fazer?

O fato é que essa notícia, essa fofoca nunca se concretizou.

Pense comigo, por um momento, sobre a televisão brasileira.

Reflita sobre o Datena e todos os âncoras dos jornais mais assistidos na televisão aberta.

Existe uma quantidade muito grande de pessoas que querem olhar para dores.

Como disse acima, essas dores atuais não são as dores que nossa alma quer olhar e honrar.

Na verdade, não queremos saber o que vai acontecer com aquele rapaz que está fugindo em uma moto.

Existem desgraças e mortes muito maiores que não olhamos.

Essa necessidade é tão grande que semana passada tivemos o dia de Finados.

O dia dos mortos é celebrado em todo o mundo.

Como fazemos isso?

Resposta: Halloween.

Quais finados e mortos foram honrados verdadeiramente no dia de finados?

Um feriadão para honrar os mortos tem conseguido satisfazer esse propósito?

Logicamente não indico abrimos mão de dias de descanso, mas talvez, como o grupo da Angélica fez, acender uma vela.

Se você não fez isso semana passada, que tal fazer hoje?

Não sei o que você sabe ou acredita sobre nossa história brasileira.

O que sei é muito pouco.

O que faz muito sentido para mim é que nós brasileiros adoramos uma desgraça, pois existem muitas dores que não foram e não são honradas e, buscamos assim, olhar para outras dores.

Isso é tão verdade que uma pequena história de algum acidente pode ganhar proporções épicas quando a fofoca esquenta sobre o assunto.

Qualquer assunto.

Desde algo que aconteceu e passou na televisão até um amigo que foi levar alguém ao médico e “parece que foi coisa séria”.

Para mim, a coisa séria que aconteceu no Brasil chama-se colonização.

Falo aqui de índios e negros.

Ambos escravos em nosso país.

Ambos mortos e colocados em condições sub-humanas para que hoje pudéssemos ter todas as facilidades que temos em nossa vida.

Eu realmente desejo que possamos honrar, acender velas, rezar para todos esses seres extremamente especiais e essenciais para nossa história.

Sem eles nós não estaríamos aqui.

Que a imagem abaixo seja um incentivo para o que você queira fazer em forma de gratidão a todos que formaram as raízes de toda nossa família Brasileira.