Na semana passada eu compartilhei algo muito profundo e pessoal que vem acontecendo na minha vida.

As internações e dinâmicas com meus pais, aqueles que fizeram minha existência possível, que tiveram coragem de me transmitir a vida, que já me deram tudo.

Como eu disse, meu pai passou por uma cirurgia e agora minha mamãe vai começar um tratamento contra o câncer.

Mas será que um tratamento contra o câncer pode ser efetivo se visto assim?

Bert Hellinger nos ensina que as doenças, quando informadas aos seus carregadores ou portadores, são vistas como algo que precisa ser tirado.

Ao querer tirar a doença, entramos em um padrão de rejeição que nos faz prisioneiros.

Se Bert Hellinger nos ensina: “tudo o que eu rejeito me aprisiona e tudo o que aceito me liberta”, o que esse constelador familiar deseja quando sua mamãe é diagnosticada com câncer?

A primeira coisa que desejei foi oferecer cuidado a minha mamãe e respeitar seus desejos.

Ao chorar junto com ela, eu fiquei em um estado calmo e respeitosamente escutei o que o médico tinha a dizer.

Alguns procedimentos foram indicados e seguimos, ou melhor, minha mãe os seguiu, e eu ofereci apoio a tudo que ela dizia.

Diante da minha estranheza em estar tão calmo, fui a minha casa.

Bert Hellinger deixa bem claro que a integração ao luto, a uma dor, a uma doença acontece em cinco etapas, assim como eu disse nesse vídeo:

Negação, raiva, barganha, depressão, aceitação.

Eu pulei algumas etapas e achei estranho, pois eu entendi de verdade o fato de que minha mãe está com câncer e aceitei.

Achei estranho, mas segui meu caminho entre atendimentos, noites no hospital, constelações, etc.

Porém, dois dias depois, eu estava em minha scooter indo a um atendimento, dois dias antes do último IKIGAI, último porque agora será chamado HENKAN, mas isso é assunto para outro texto.

E pensando na vida, lembrei da minha sobrinha de 5 anos, pensei no fato dela não ter passado tanto tempo assim com esse ser humano maravilhoso que também chamo de mãe.

Pensei nela e na sua tristeza infantil caso sua avó, minha mãe, morresse, e que provavelmente em alguns anos ela teria uma agradável lembrança sem muitas memórias da avó.

Pensei que ela provavelmente choraria no enterro e aí tive uma imagem clara do velório e enterro da minha mãe.

E assim sendo, bem-vinda etapa do luto chamada de depressão.

Imaginei a dor da minha sobrinha e me conectei com minha própria dor pela morte da minha mamãe.

E como Bert Hellinger nos ensina, uma frase veio a minha mente:

Mamãe, quando você morrer eu sigo.

As lágrimas foram diminuindo, a dor foi passando e aí me imaginei visitando a casa da minha mãe quando ela já tiver ido.

E assim sendo, bem-vinda etapa barganha, pois me deu vontade de levar minha mamãe ao João de Deus, que é famoso por curar diagnósticos parecidos, e novamente a depressão.

Continuei a chorar e chorei muito.

Ao encontrar minha mãe fiz a sugestão de irmos ao João de Deus.

Minha mãe disse:

Vou pensar.

Eu, fora do meu lugar de filho disse:

Vamos lá, mãe. A gente vai antes da senhora começar a quimioterapia e talvez nem precise fazer. Podemos ir assim que possível. A gente vai de avião, é rápido. 

Minha mãe ficou muita brava e disse:

Eu não vou agora, já disse.

Eu, em silêncio, lembrei do Bert Hellinger:

Filho apenas oferece cuidado, não opina e nem escolhe nada por seus pais”.

Confesso que mesmo sabendo da frase, tentei mais uma vez e minha mãe ficou muito brava.

Minha mãe, como sempre, me ensinado a sentir na alma o que acontece quando um filho não segue o que Bert Hellinger ensina.

Eu pedi desculpas e não fiz mais nenhuma sugestão, todas as minhas conversas com ela desde então, mesmo na dor, são:

O que a senhora quer?

E, mesmo querendo barganhar para encontrar cura, não faço nenhuma sugestão, apenas ofereço cuidado e ligo para ela muito mais do que eu ligava antes, apenas para dizer que a amo.

E sabe o que aconteceu?

Mais uma linda percepção de que Bert Hellinger é realmente importante para minha vida, pois ele trouxe harmonia para os desafios da minha vida nesse momento.

Dois dias depois disso, estamos em mais um lindo IKIGAI e, no domingo, como era antes do feriado de 9 de julho, pudemos sair e tomar cerveja com a maioria dos participantes.

Eu também queria estar com pessoas felizes que acabavam de reconhecer seu propósito de vida.

Foi importante para mim naquela semana desafiadora.

Fomos a um bar e de repente um maço de cigarro é colocado na mesa com a advertência que causa câncer virada para cima e bem na minha cara.

Minha mamãe fuma desde os 12 anos e no auge dos 70 anos, foi diagnóstica com câncer pulmonar.

Algumas cervejas e uma participante do IKIGAI diz em tom de brincadeira:

“Gente, vamos lá fora fumar um pouco e jogar câncer em nossos pulmões.

Quatro pessoas levantaram, inclusive uma que dizia ter parado de fumar, mas queria fumar naquele dia e dando risada que “era só um pouquinho de câncer”, foi incentivada a sair com o maço em mãos.

E eu, adivinha o que fiz?

Dei boas-vindas a mais uma fase do luto: Raiva.

E o que um constelador faz quando isso acontece?

Semana que vem eu continuo com essa história.