Como disse nos dois últimos textos, minha vida em 2018 vem sendo acompanhada de eventos que me forçaram a olhar de frente para o medo de que meu papai e mamãe podem morrer em breve.

Em relação ao meu pai, ele teve um mal súbito, passou por uma cirurgia para colocação de um marca-passo e já está de volta em sua rotina, enquanto o tratamento da minha mãe acontecerá durante alguns meses com um risco um pouco maior de momentos de sofrimento com rádio e quimioterapia.

Também e como já disse, estava eu em um bar logo depois de um lindo HEKAN do qual as pessoas saem extremamente felizes com o encontro com seu propósito de vida, e como era feriado de 9 de julho no dia seguinte, estávamos em um bar comemorando as descobertas durante o HENKAN e uma participante sugeriu uma saída a rua para que, conforme ela disse: pudesse jogar um pouco mais de câncer nos pulmões.

Eu olhei para ela, pensei na piada e na hora lembrei que em alguns momentos eu também já fizera piadas de mau gosto como aquela. Piadas chamadas de humor negro.

Entretanto naquele momento doeu.

Doeu muito e minha vontade foi levantar, mostrar a embalagem do cigarro onde estava escrito que fumar causa câncer, mas não levantei.

Lembrei de um vídeo que gravei em Porto Alegre dizendo que não existe indústrias más.

Lembrei que disse que,conforme Bert Hellinger, tudo está a serviço de algo que não compreendemos.

Todas as indústrias, todos os produtos estão a serviço da criação de empregos e do sustento de famílias que têm o pão de cada dia graças às vendas de produtos, não importa quais sejam.

Ao ter essa compreensão, buscamos diminuir o julgamento em várias áreas da vida, mas confesso que não esperava por algo tão impactante em relação ao cigarro vindo de uma fumante sugerindo jogar câncer para dentro dos pulmões enquanto minha mamãe estava internada com tal diagnóstico precisando de cuidados e atenção.

O que eu fiz foi fechar os olhos e compreender que até então eu não havia integrado plenamente o conhecimento em meu coração.

Minha raiva e vontade de falar tudo que eu estava pensando, sobre como o cigarro mata, foi gigantesca, então, em vez de entrar em uma discussão que seria iniciada a partir da minha dor e não traria nada de essencial para o momento, resolvi respirar.

Respirar com a intenção de sentir a raiva é algo que Bert Hellinger também nos ensina e eu coloquei em prática mais um dos seus ensinamentos: abrir espaço para TUDO, TUDO que acontece a partir do coração.

Qualquer outro movimento vindo de mim teria sido um grito desesperado, infantil, cheio de razões e conclusões e, se eu comentasse o estado da minha mamãe, todos ficariam do meu lado em uma eventual discussão com alguém que se recusasse a entender a visão dos cigarros a partir da minha dor.

E assim como as Constelações Familiares nos ensinam, respirei, integrei, aceitei e fui ao banheiro chorar um pouco para novamente respirar, integrar, aceitar, chorar, respirar e buscar sentir essas sensações.

A mesma sensação se repetiu quando vi o local onde minha mãe compra seu cigarrinho. Minha mãe não gosta de comprar maços pois, segunda ela, ela fumaria mais.

Seu vício é entre 3-5 cigarros por dia e ela os compra em uma barraquinha na calçada em frente ao supermercado perto da casa dela.

Outra coisa que lembrei foi que eu já havia brigado com minha mãe e pedido muitas vezes para ela parar de fumar,até o dia que vi que a recomendação do Bert Hellinger para essas situações é perceber que geralmente o filho que briga com os pais para eles pararem de fumar está em um movimento infantil inconsciente da criança que vive dentro de cada um e que está com muito medo de que seu papai e sua mamãe morram e, Bert Hellinger recomenda, e lembro claramente do dia que falei isso para minha mamãe assim como foi ensinado.

Mamãe, toda vez que a senhora fuma eu fico com muito medo de que a senhora morra. A partir de hoje eu vou respeitar sua decisão de fumar enquanto olho para esse meu medo de que a senhora possa morrer.

Sabe o que Bert Hellinger nos ensina sobre qual o movimento dos pais como resposta para tal conversa?

Eu sabia e, como sempre, minha mamãe sem nunca ter lido uma frase do Bert olhou para mim e disse:

Filho, eu vou morrer. Assim como eu sofri com a morte dos meus pais, você vai sofrer com a minha partida. Entretanto garanto a você uma coisa, você vai sobreviver e vai viver sua vida mesmo depois que eu for.

Nesse dia, a certeza de que meu caminho era o das Constelações Familiares tomou ainda mais meu coração e, em vez de ser apenas uma frase ou um livro de Bert Hellinger com algum conhecimento literal, graças a minha mamãe, a minha amada mamãe, sinto um caminho dolorido, porém de certa leveza ao olhar para a dor e as lágrimas que aparecem e respiro buscando senti-las enquanto o tratamento dela está acontecendo, e essa frase sempre vem a minha mente e eu convido meu coração dolorido a senti-la.

Mamãe amada, quando a senhora morrer eu vou sentir muito a sua falta, mas eu seguirei. – Bert Hellinger